Rotatividade e Mudança
Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto pela aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e cidade.
A característica mais marcante de meu pai era sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livro, com uma única fortuna: o pensamento. Eu no começo achava meu pai um homem tão só amargurado por ter sido abandonado pela minha mãe quando eu era de colo.
Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, o meu pai me levava a passear todos os dias pela manhã na Praça Julio de Castelos e me ensinava os nomes das arvores, eu não gostava de ficar só os nomes, gostava de saber a característica de cada vegetal, a régio de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama.
Sei que o mundo não era só de plantas, mas fiquei interessado em saber suas características. Meu pai não sabia, apenas observava, não queria ter profundidade do assunto. Aliás, não queria ter profundidade de nenhum assunto, um sujeito sim que tinha interesse que mudar de trabalho, mulher e cidade. O que o levava a pensar desse jeito? O gosto pela vida? O prazer em vivê-la de todas as formas? Acho que não, ele não tinha era amor a sua própria vida, não procurava crescer em seu trabalho, em evoluir de cargo, queria sempre uma mulher diferente e bonita, morar em lugares que jamais foi.
Meu pai nunca tinha parado para pensar que ia envelhecer que precisava de alguém que o amasse de verdade como minha mãe, como eu, mais ele não pensava nisso. Lembro-me bem, quando perguntei qual era os seus planos, seus objetivos, e ele me respondeu:
- Meu filho, meu maior prazer, é mudar, não gosto que minha vida se torne rotina, gosto de sentir diferenciados desejos e cumpri-los.
- Papai, sabe que não tenho experiência de vida que o senhor tem, mas será que não está na hora de refletir um pouco e ver que a vida não é assim, temos que plantar algo bom e colhermos.
- Sim, eu plantei você e seus irmãos são minha jóia rara, tudo que tenho.
Lembro-me bem deste episódio da minha vida, porque meu pai dizia que éramos a sua jóia rara, mais da boca para fora, porque apenas oque nos dava era dinheiro para sobreviver meus outros irmãos não queria nem ouvir o seu nome, eu que sempre me preocupava, e sempre estava do seu lado.
Hoje meu pai colheu o que plantou, dependente químico, que para sobreviver procura a bebida, mas estou ao seu lado, para o que der e vier, trabalho muito, para que não lhe falte nada, mas isso é a dura realidade de uma vida de rotatividade e mudança, bem que lhe avisei.